domingo, 18 de janeiro de 2009

Das coisas fugídias...


Abel estava frustrado.
Era o sonho que não realizava, os quereres que não saciavam, o dinheiro que nunca vinha, as ruas cada vez mais claustrofóbicas e a chegada da idade que lhe ceifava os desejos (permitidos apenas aos jovens de natureza romântica e rebelde). Inseguranças sobre si mesmo eram projetadas em mil picuinhas, as quais ele passava suas horas a desesperar e comiserar em auto piedade.

Para externar - ou ainda, extenuar e estender - todas as ansiedades, doava-se aos excessos (achando, burramente, que a vida não lhe cobraria de volta): mulheres, drogas, falsas sensações, medo do que lhe era real, irresponsabilidade, idolatrias momentâneas, fumaças, egoísmos, lapsos de memória em série, indecisões, inferninhos, incertezas...

Procurava conquistar e manter sob controle tudo aquilo que dependesse apenas de si, já que a natureza tinha sido tão injusta em descumprir sua parte no acordo ao lhe negar o estrelato.
Justo ele, que tanto havia deixado para trás...

Ele fazia uma troca consigo mesmo: já que não tinha materializado o maior de todos os afãs, iria compensar(-se) com outras coisas que sanassem a tormenta no pouco juízo que lhe restara.

Como num ato compulsivo, tal qual comer para vomitar; gastar e não poder pagar; fumar e adoecer; ser machucado pelo mundo e ferroar uma pessoa, Abel precisava de uma descarga, de um escape humano e do amor que lhe fora ofertado tão incondicionalmente por uma menina de tempos atrás. Ela veio trazida de outras lembranças e outros mundos. Parecia feita apenas para ninar Abel e protegê-lo da orbe ingrata que o cercava.

Assustador era ver como tão doce homem e de olhos belos (ainda que pueris) havia sido tomado por uma arrogância e uma capacidade de mentir para funcionar.
O menino, o menino dela, tinha se perdido... Ido embora.

Rumou-se para outros mundos -não aquelas dimensões que ela conhecia-, mas os ocultos lados-de-lá em que jamais poderia entrar: por ali, a porta estava sempre trancada e não importava o quanto batesse ou chorasse, o mostro não a deixaria passar.

Foi ruim assistir em ângulos e cenas de um só plano seqüência, (o outrora sedutor) Abel transformar-se na vaidade.
Uma enorme dificuldade tomava conta dela e, trêmula, tinha de ver tudo o que idealizou se perder e diluir a pura essência.
Essência esta que tanto perfumou seus dias ao longo dos anos.
A mesmíssima essência que pressupunha a existência.

Um dia foram andar sob o céu estrelado,
no outro dançaram com o vento,
anos antes tinham beijado na chuva,
por vezes brincaram como crianças entre lençóis,
uma linguagem tatibitate na tarde ensolarada,
tantos colos e tantas cores na areia,
a grama verde também sempre fora lar,
e os planos eram infindos.

Abel, Abel...
Enquanto mirava tua essência sendo dissipada e aniquilada,
velava também por (meus) tantos sonhos que (eu) julgara tão reais.

É triste confirmar o que o mundo fez de você, de mim, e das fantásticas pessoas que tivemos a possibilidade de ser.

Nesse emaranhado confuso e descabido, ainda sinto um enorme luto pela pessoa que vi morrer e vender a própria alma por coisas que valem nada.

E depois de tudo isso, eu, a sua Esther,
jamais consegui ler em paz 'Para uma menina com uma flor',
de meu primeiro amor, Poetinha de Moraes.

(Das coisas fugídias, 20mg.)
P.S.: Vide a bula - 20mg de essência.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Fluoxetine-2D-skeletal.png

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